O Incidente do Riacho Blackwood

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Me mudei do estado de Washington uns oito meses depois disso acontecer. Coloquei tudo na minha caminhonete e só dirigi para o leste até parecer longe o suficiente. Acabei no Ohio. Não sou do Ohio. Não conheço ninguém no Ohio. Era mais ou menos esse o objetivo. Foi em outubro de 2014. Final de outubro. Cinco de nós tínhamos ido para a drenagem de Blackwood Creek caçar alce todo ano por uma década inteira. Mesmo acampamento, mesma semana, mesmo grupo. Eu, Ray Dubois, Dale Carver, Phil Kostner e Todd Hewitt. Fazíamos aquela viagem desde antes do primeiro filho de Ray nascer, e essa criança tinha doze anos em 2014. Era o tipo de coisa que não precisa mais de planejamento — você só sabe que vai. Todd tinha torcido o tornozelo feio na segunda manhã. Estávamos atravessando uma drenagem e ele pisou torto numa pedra. Dava para ouvir o estalo. Não conseguia apoiar o peso, então ficou no acampamento. Esse tipo de coisa acontece. Ele não estava feliz, mas tinha seu rifle, tinha comida, tinha o aquecedor de propano no trailer. Achamos que estaríamos de volta antes de escurecer e ele teria o jantar pronto e a gente ia encher o saco dele com a história do tornozelo pelo resto da viagem. Os quatro de nós — eu, Ray, Dale e Phil — fomos para a crista leste. Foi um bom dia, na verdade. Um dos melhores dias dessa viagem. Achamos uma cama de alce fresca uns três quilômetros adentro e trabalhamos ela a tarde toda. Ray teve um tiro limpo num de seis pontas por volta das três da tarde. Toda a caminhada de volta para o acampamento estávamos rindo, conversando sobre o tiro. Lembro de estar feliz. Fico voltando a isso. Estávamos genuinamente felizes voltando por aquela drenagem, e aí o vento mudou e tudo mudou.

O cheiro nos atingiu a uns quatrocentos metros de distância. Quero descrevê-lo corretamente porque nunca cheirei nada assim antes ou depois. Era enxofre, sim, mas enxofre combinado com algo doce e errado. Não doce como comida. Doce como algo biológico que havia dado muito errado de um jeito muito grande. Como podridão, mas intenso. Os quatro de nós diminuímos o passo sem dizer uma palavra. Instinto. Quando viramos a última curva e vimos o trailer, Phil disse algo. Não me lembro o quê. Não eram palavras, na verdade. O trailer era um modelo de viagem de sete metros e vinte. Revestimento de alumínio branco. Algo tinha entrado por dentro da parede lateral — não pela porta, não por uma janela. Pela parede em si. O alumínio havia sido dobrado para trás em seções, enrolado para fora, e a palavra que me veio à cabeça ali parado era origami. Não rasgado. Não amassado ou esmagado como um animal faria. Dobrado. O metal havia sido trabalhado. Não sei como dizer de outro jeito. Chamamos por Todd. Sem resposta. Entramos. Seu saco de dormir ainda estava aberto no beliche. Suas botas estavam na porta. Sua Remington 700, a .30-06 que seu pai havia lhe passado quando morreu, estava no chão perto da cozinha compacta. Exceto que não estava exatamente no chão. O receptor e parte do cano tinham afundado no linóleo. Não derretido através dele. Dentro dele. Como se o metal tivesse amolecido e depois endurecido novamente. O piso ao redor não estava queimado. O aquecedor de propano ainda estava funcionando. O linóleo bem ao lado do rifle estava intacto. Qualquer calor que tivesse feito aquilo ao metal havia sido preciso. Específico. Não havia sinal de Todd. Vasculhamos o acampamento, chamamos, circulamos o trailer duas vezes. Nada. Sem sangue, sem marcas de arrasto, nada perturbado do lado de fora do trailer. Ele estava lá e depois não estava mais.

Estávamos parados do lado de fora em um semicírculo irregular, ninguém querendo ser o primeiro a dizer o que todos estávamos pensando. Phil estava com sua grande Maglite de quatro pilhas. O resto de nós tinha lanternas de cabeça. A Maglite do Phil era a melhor luz que tínhamos e naquele tipo de mata, abeto de segundo crescimento denso, você está falando em uns quinze a dezoito metros de alcance útil antes que o feixe se espalhe e enfraqueça. Além disso você vê formas, não detalhes. O rosnado começou baixo. Quero ter cuidado com essa palavra porque não era exatamente um som. Era uma vibração. Senti primeiro nos dentes do fundo, depois no peito. Ray colocou a mão na mandíbula. Dale fez um som. A vibração se intensificou por uns quatro segundos e então caiu e houve silêncio completo — nem mesmo o riacho — e Phil varreu a luz em direção à linha de árvores. Estava na borda da mata. Uns dezoito a vinte e um metros para trás, talvez mais. Uns dois metros de altura, possivelmente maior. Bípede. A postura estava errada para qualquer coisa que eu conhecia — muito ereta, ombros para trás, braços pendurados compridos demais ao lado do corpo. A superfície dela pegou a luz de Phil e a devolveu, lustrosa e com aparência molhada, como um peixe parece quando sai da água. As escamas em sua garganta eram de uma cor clara, creme ou branco-amarelado, e o topo de sua cabeça era escuro, verde-oliva profundo ou quase preto ao longo da crista dorsal. A cabeça inclinou. Não da forma que um cachorro inclina a cabeça. A cabeça foi para o lado e continuou indo, além do ângulo que um pescoço deveria permitir, e ficou assim. Estava nos olhando com um olho, uma pupila vertical, dourada ou âmbar, e não se movia e não piscava.

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