Isso aconteceu em março de 2006. Final de março, por volta do dia 24 ou 25, acho. Eu tava voltando de uma obra do lado de fora de Wells, descendo a Highway 93 em direção a casa. Já tinha passado da meia-noite, eu lembro porque tinha feito um turno duplo e tava destruído. Só queria chegar em casa. Aquela rodovia, se você nunca dirigiu por lá, é vazia do mesmo jeito. Quilômetro atrás de quilômetro de mato seco e escuridão. Sem cidades, sem postos de gasolina, sem nada. ficar sozinho nas rodovias desertas é arrepiante - Heath' Naquela hora da madrugada, você podia passar vinte, trinta minutos sem cruzar com outro carro. Era só eu e a estrada. Eu devia tá umas sessenta e poucos quilômetros ao sul de Wells quando percebi pela primeira vez pelo retrovisor. Só uma luz, uns trinta metros acima, talvez um pouco mais. Cor âmbar, tipo aquelas lâmpadas de sódio que têm nos estacionamentos, mas mais forte. Muito mais forte. A princípio achei que era helicóptero, talvez de busca e resgate. Mas não se movia como helicóptero.
Continuei dirigindo, continuei olhando pro retrovisor. A luz ficou ali atrás de mim. Mesma distância, mesma altura. Acelerava pra cento e dez, cento e vinte, ela ficava ali. Reduzia pra oitenta, mesma coisa. Nunca chegou mais perto, nunca ficou pra trás. Só mantinha aquela distância exata atrás de mim. Dirigi assim por uns quarenta, cinquenta quilômetros. O tempo todo aquela luz não vacilou em nenhum momento. Tirava o olho do retrovisor pra olhar a estrada, voltava a olhar, e ela tava lá. Mesma posição. Mesmo brilho. O estranho era a estabilidade, sem balançar, sem movimento lateral. Perfeitamente nivelada, perfeitamente parada, perfeitamente posicionada atrás de mim. Cruzei com um caminhão indo pro norte mais ou menos na metade do trajeto, e lembro de pensar como tudo o mais parecia normal. A estrada tava boa, minha caminhonete rodando bem, o rádio tocando. Tudo normal, menos aquela luz que não me deixava em paz.
Aí, umas oito quilômetros antes do desvio para Lages Station, fiz algo que ainda não consigo explicar direito. Reduzi a velocidade. Não gradualmente, quero dizer que tirei o pé completamente do acelerador e deixei a caminhonete desacelerar sozinha. Eu devia tá a uns cento e dez, e deixei cair pra cem, depois noventa, depois oitenta. Não fiz isso pensando. Simplesmente fiz. A luz ficou ali atrás de mim. Mesma distância, mesmo enquanto eu reduzia. E lembro de ter aquela sensação, aquela certeza absoluta, de que se eu parasse completamente, alguma coisa ia acontecer. Alguma coisa ia mudar. Cheguei a umas cinquenta por hora, e tava quase encostando o carro quando a luz sumiu. Não gradualmente. Simplesmente foi. Um segundo ela tava lá, no segundo seguinte, nada. Encoste mesmo assim, saí do carro, olhei pro céu. Nada. Sem som, sem movimento, nada. Só o vento e a escuridão e minha caminhonete ronronando no acostamento.
[ A história continua no jogo completo... ]