Boa noite. Obrigado por me deixar contar. Tenho oitenta e seis anos. Não acho que vou chegar aos oitenta e sete. Não é lamento — é só a matemática. O médico me deu os números no mês passado e já fiz as pazes com isso. Mas tem uma coisa com que não fiz as pazes. Algo que eu fiz. E acho que se vou contar pra alguém, tem que ser agora. Enquanto ainda consigo. Minha filha acha que eu devia deixar pra lá. Me diz isso faz anos. Fala que vou me sentir melhor se parar de pensar no assunto. Mas ela não sabe o que é. Ninguém sabe. Assinei documentos em sessenta e dois dizendo que nunca falaria sobre isso, e nunca falei. Sessenta e três anos de boca fechada. E tem me consumido vivo o tempo todo, se é que acredita.
Novembro de sessenta e dois. Eu trabalhava pra uma empreiteira em Albuquerque. Oficialmente fazíamos levantamentos topográficos. Extraoficialmente, fazíamos o que o governo precisasse sem fazer barulho. Já tinha participado de algumas recuperações antes. Balões meteorológicos caídos, aeronaves experimentais que não deveriam existir. Coisas sigilosas. Era bom nisso. Sabia ficar quieto e manter a boca fechada. O chamado veio por volta das duas da madrugada. Mandaram só eu. Só eu mesmo. Era o único em quem eles confiavam pra esse tipo de coisa, se é que acredita. Sem parceiro, sem apoio. Só coordenadas e uma janela de tempo. Chegar antes do amanhecer, assegurar o que encontrasse, esperar o transporte. Lembro de achar estranho mandarem um homem só pra uma recuperação. Normalmente eram equipes de três, quatro caras. Mas ordens são ordens. Carreguei a caminhonete e fui pro norte.
As coordenadas me levaram pra além de Willow Creek, lá nas colinas onde não tem nada além de mato e silêncio. Três horas de estradas de terra pra chegar. Lua nenhuma naquela noite. Só meus faróis cortando a escuridão. Senti o cheiro antes de ver. Aquele cheiro forte e químico. Como ozônio misturado com algo adocicado. Me fez arder os olhos. Tive que puxar a camisa por cima do nariz só pra respirar. Aí meus faróis pegaram a borda. A nave. Se é que você quer chamar assim. Não era grande. Uns seis metros de diâmetro, mais ou menos. Formato como uma lágrima, de certo modo. A parte dianteira estava amassada contra a encosta, e havia esse fluido escuro vazando pelas rachaduras. Não era óleo. Não era combustível. Era algo mais denso. Captava a luz de um jeito errado. Parecia quase roxo em certos ângulos.
[ A história continua no jogo completo... ]