Pesquiso história colonial espanhola há quase vinte anos, e tem um caso ao qual continuo voltando. Um que ninguém consegue explicar. Isso aconteceu em outubro de 1593, e preciso contar porque a documentação existe. Os registros existem. Um soldado chamado Miguel Torres estava estacionado em Manila, nas Filipinas. Colônia espanhola na época. Era guarda do palácio no Palácio del Gobernador, o Palácio do Governador. Nada de especial sobre ele. Só um soldado comum cumprindo seu dever. Agora, na noite anterior ao ocorrido, 23 de outubro, o Governador, Rodrigo Valdez, foi morto. Remadores chineses no seu navio se amotinaram enquanto ele navegava para as Ilhas Maluku. Mataram ele e a maioria dos seus guardas. A colônia inteira foi lançada ao caos. Mas os guardas do palácio mantiveram seus postos. Esperavam o anúncio de quem seria o novo governador. É o que os soldados fazem. Seguem ordens.
Então é 24 de outubro de 1593. Miguel Torres está de guarda fora do palácio. É tarde. Ele está exausto. A colônia está em desordem pelo assassinato, todo mundo nervoso, e ele está de plantão há horas. Começa a sentir tontura. Cabeça leve. Encosta na parede do palácio só pra se firmar, fecha os olhos por um momento. Quando os abre, não está mais em Manila. Está em pé na Plaza Mayor. Na Cidade do México. A mais de catorze mil quilômetros de distância. quilômetros impossíveis de percorrer tão rápido - Carlos' Ele não sabe onde está no começo. A arquitetura é diferente. As pessoas são diferentes. Ainda usa seu uniforme de guarda do palácio de Manila, que não se parece em nada com o que os guardas mexicanos usam. Está confuso, desorientado. Quando pergunta a alguém onde está, dizem que está na Nova Espanha. México. Ele não consegue acreditar. Insiste que estava nas Filipinas há pouco.
As autoridades o prendem quase imediatamente. Seu uniforme está errado. Sua história é impossível. Acham que é um desertor, ou pior, um servo do diabo. O levam perante o próprio Vice-Rei para interrogatório. E eis o que torna esse caso tão convincente. Torres lhes diz que o Governador das Filipinas tinha acabado de ser assassinado na noite anterior. Morto por amotinados em seu navio. Ninguém no México sabia disso ainda. Nenhum navio tinha chegado. Era impossível essa informação cruzar o Pacífico com tanta rapidez. Levava meses para as galeões fazerem aquela travessia. O Vice-Rei acha que ele mente ou está louco. O jogam na prisão por deserção e por suspeita de tratos com Satanás. Ele ficou naquela cela por dois meses, só esperando. Insistindo que sua história era verdade.
[ A história continua no jogo completo... ]