O Vizinho Sorridente

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Olá. Fiquei indo e voltando na ideia de compartilhar isso, mas lá vai. Foi em 2015. Final de outubro. Tinha acabado de me mudar para uma casinha alugada nos arredores de Fort Collins. Nada de especial, só um lugar de dois quartos numa rua tranquila. Vinha saindo de um ano difícil, se é que faz sentido. Precisava de um lugar onde pudesse simplesmente existir por um tempo sem ninguém me perguntando como eu estava. O bairro era antigo. Muitos aposentados, gente que estava lá havia uma eternidade. Me mantive isolada nas primeiras semanas. Não me apresentei a ninguém, não acenei da garagem. Só fui trabalhar, voltei para casa, fui dormir. A casa diretamente do outro lado da rua estava vazia. Dava para perceber. Nunca tinha carro na garagem. Correspondência se acumulando na caixa. Nunca vi uma única luz acesa naquele lugar, nem uma vez durante todo o tempo que morei lá. Imaginei que quem quer que fosse o dono havia falecido ou se mudado para uma casa de repouso. Isso acontece bastante nesses bairros. Foi na terceira manhã que morava na casa que o vi pela primeira vez.

Estava na cozinha fazendo café. Era cedo, seis e quarenta e sete da manhã. Lembro a hora exata porque tinha acabado de olhar para o relógio do micro-ondas e pensado que devia mesmo começar a dormir mais tarde. Olhei pela janela sobre a pia, e lá estava ele. Na janela do segundo andar daquela casa vazia. Um homem idoso. Cabelo branco, meio ralo. Usava um roupão xadrez, daquele tipo antiquado com o colarinho acolchoado. E estava me sorrindo. Não só olhando — sorrindo. Um sorriso grande, caloroso, de avô. E acenava. Devagar, deliberado, como se estivesse cumprimentando um velho amigo. Congelei. Fiquei parada com a caneca de café na metade do caminho até a boca. Não acenei de volta. Não sei por quê. Algo naquilo me deixou de guarda. Na manhã seguinte, a mesma coisa. Seis e quarenta e sete. Mesma janela. Mesmo sorriso. Mesmo aceno. Havia uma luz quente atrás dele dentro da casa, então conseguia ver sua silhueta perfeitamente. Também não acenei dessa vez. Fiquei ali observando até ter que sair para o trabalho. Isso se repetiu por três semanas. Toda manhã. Seis e quarenta e sete, na hora certa. Comecei a aguardar por isso. Havia algo reconfortante naquilo. Aquele pequeno ritual. Aquele velho gentil que parecia tão feliz só de me ver.

Foi numa quinta-feira que finalmente acenei de volta. Estive pensando nisso a semana toda. Parecia bobo não ter feito antes. Ele tinha sido tão amigável, tão consistente. O mínimo que eu podia fazer era reconhecê-lo. Então naquela manhã, seis e quarenta e sete, lá estava ele. Mesma janela. Mesmo sorriso. Mesmo aceno. Larguei o café, levantei a mão e acenei de volta. O sorriso desapareceu do rosto dele como se alguém tivesse apagado uma luz. Instantaneamente, de verdade. Um segundo ele estava me dando aquele sorriso luminoso, no seguinte o rosto dele estava simplesmente... apagado. Completamente apagado. Sem expressão alguma. A mão parou de se mover. O braço ficou ali suspenso no ar. Ficamos nos encarando por talvez cinco segundos. Pareceu uma hora. E então ele sumiu. Não como se tivesse ido embora andando. Ele simplesmente sumiu. A janela estava vazia. A luz quente atrás dele, também sumiu. Só uma janela escura numa casa escura. Não dormi bem naquela noite. Fiquei olhando pela janela do meu quarto para aquela casa. Nada. Nenhum movimento. Nenhuma luz. Nada. Na manhã seguinte, estava na janela da cozinha às seis e meia, esperando. Seis e quarenta e sete chegou e passou. Nada. Ele nunca mais apareceu.

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