Oi, obrigado por atender minha ligação. Ouço seu programa há algum tempo, e acho que seus ouvintes precisam ouvir isso. Meu nome é Elias. Trabalhei como Arquivista Sênior de Dados no CERN por onze anos. A Organização Europeia para Pesquisa Nuclear. Tenho certeza que a maioria dos seus ouvintes já ouviu falar. O Grande Colisor de Hádrons. A maior máquina já construída. Não estou ligando pra falar sobre física de partículas. Estou ligando porque sei algo que pouquíssimas pessoas neste planeta entendem. E as que entendem, elas não estão falando. Não podem falar. Porque se falassem, faz sentido, ia desmontar tudo que a gente acha que sabe sobre a natureza da existência em si. O mundo acabou em 2012. Eu estava lá quando aconteceu. E passei os últimos doze anos tentando descobrir como contar pra alguém.
Deixa eu dar um contexto. Comecei no CERN em 2001, direto da pós-graduação. Arquitetura de dados. Meu trabalho era gerenciar os sistemas de armazenamento e recuperação de dados experimentais. Petabytes de informação. Cada colisão, cada traço de partícula, cada anomalia, tudo registrado e arquivado. Em 2012, tinha sido promovido a arquivista sênior. Eu tinha acesso a fluxos de dados que a maioria dos pesquisadores nunca via. Não os dados físicos — os dados operacionais. Registros de sistema. Relatórios de erros. Saídas de diagnóstico do próprio colisor. A máquina falando consigo mesma, faz sentido. Dezembro de 2012, o mundo inteiro estava em alvoroço com o calendário maia. O suposto fim dos dias. A gente zoava sobre isso na instalação. Cientistas adoram zombar de superstição. Mas havia outra coisa acontecendo naquele mês. Uma série de testes de colisão de alta energia que não estavam no cronograma público. Só soube deles porque os requisitos de armazenamento de dados passaram pelo meu departamento.
21 de dezembro de 2012. O solstício de inverno. Eu tava trabalhando tarde na sala de arquivo principal. Embaixo do chão, dois níveis abaixo do centro de controle principal. Só eu e os servidores. Tinha me oferecido pro turno da madrugada porque a maioria das pessoas queria estar em casa com a família. As festas, sabe. Eu não tinha ninguém esperando, então peguei o turno. O teste de colisão estava programado pras onze e quarenta e sete da noite, horário local. Eu tava monitorando os sistemas de entrada de dados, observando os buffers de armazenamento enchendo em tempo real. Procedimento padrão. Tinha feito isso centenas de vezes. Às onze e quarenta e seis, percebi algo estranho. Os relógios do sistema começaram a derivar. Não muito. Milissegundos. Mas nossos sistemas são sincronizados com precisão atômica. Eles não derivam. Nunca. Anotei no meu registro e continuei observando.
[ A história continua no jogo completo... ]