Passei a vida inteira em radioastronomia. Fiz meu doutorado em Michigan, anos trabalhando em Ohio State. Já analisei mais dados do que consigo lembrar. Mas tem um momento, uma folha de papel, que mudou tudo. Agosto de 1977. Eu tava trabalhando como voluntário no projeto SETI no radiotelescópio Big Ear. Isso é Search for Extraterrestrial Intelligence — Busca por Inteligência Extraterrestre — pra quem não conhece. Preciso explicar como funcionava. O Big Ear era um radiotelescópio imenso perto de Delaware, Ohio. Quase do tamanho de três campos de futebol americano. Não era uma antena parabólica como a maioria imagina. Tinha dois refletores enormes, um plano e um curvo, que trabalhavam juntos pra captar ondas de rádio do espaço. Uma engenharia linda. O equipamento originalmente era da Marinha dos Estados Unidos — coisa da Guerra Fria, feito pra interceptar submarinos soviéticos. Quando a Guerra Fria esfriou, passaram pra nós, cientistas. A gente usava pra buscar sinais de banda estreita, o tipo que não ocorre naturalmente. O tipo que uma civilização inteligente poderia emitir. Meu trabalho era analisar as impressões do computador. Ninguém ficava no telescópio durante as observações. O receptor e o computador IBM 1130 faziam tudo automaticamente, gravando dados em longas folhas de papel impresso. Nosso técnico Gene passava na minha casa a cada poucos dias, deixava pilhas de impressões, e eu ia analisando à mão.
Então era uns dias depois do dia 15 de agosto, provavelmente dia 19. Tava sentado em casa analisando o lote mais recente de impressões. Trabalho de rotina, sabe. Página atrás de página de números e letras representando intensidades de sinal em cinquenta canais diferentes. Basicamente ruído. Uns e dois e espaços em branco. Isso era o esperado. lembro quando essa história saiu pela primeira vez, ainda dá arrepio - Jared' Aí virei uma nova página e vi. Canal dois. Uma sequência que fez meu coração parar. Seis caracteres: 6EQUJ5. Soube imediatamente o que estava vendo. Aquele padrão, a maneira como a intensidade subia e depois caía, correspondia exatamente ao que esperaríamos de uma fonte pontual de banda estreita. Algo lá fora, muito longe, emitindo um sinal diretamente pra nós. O 'U' nessa sequência significava que o sinal atingiu trinta vezes o ruído de fundo. Trinta sigma. Isso não deveria acontecer. Peguei minha caneta vermelha e circulei esses caracteres. E sem pensar, escrevi uma palavra na margem. Saiu automaticamente. 'Wow!' Foi só isso que escrevi. Eu não sabia que essa palavra ia me seguir pelo resto da vida.
Liguei imediatamente pro nosso diretor, Dr. Kramer. Depois pro nosso vice-diretor, Richard. Eles vieram até aqui e ficamos só olhando pra aquela impressão juntos. O sinal tinha chegado às dez e dezesseis da noite, horário do leste, no dia 15 de agosto. Durou exatamente 72 segundos — que é precisamente o tempo em que o Big Ear conseguia observar qualquer ponto do céu enquanto a Terra girava. A frequência era de 1420 megahertz. A linha do hidrogênio. Isso é significativo porque o hidrogênio é o elemento mais abundante do universo. Em 1959, dois físicos de Cornell teorizaram que se alguma civilização quisesse fazer contato, provavelmente transmitiria nessa frequência porque qualquer espécie inteligente estudando o cosmos já estaria ouvindo lá. O sinal veio da direção de Sagitário. Um ponto remoto no céu, sem nada de particularmente notável. Verificamos todas as possibilidades. Satélites, aeronaves, transmissores terrestres, planetas. Nada bateu. Essa faixa de frequência é protegida internacionalmente. Ninguém tem permissão de transmitir ali. Fui até a Inteligência da Marinha, perguntei se podia ser algum projeto militar classificado. Disseram que não. Não fomos nós. Não era nenhuma fonte conhecida. E tem uma coisa que ainda me incomoda. O Big Ear tinha dois cornos alimentadores, dois feixes que varriam o céu com intervalo de uns cinco minutos. A gente deveria ter captado o sinal duas vezes. Mas só captamos uma vez. Um feixe pegou. O outro não. Como se alguém tivesse apontado uma lanterna na nossa direção por pouco mais de um minuto, e depois apontado pra outro lado.
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