Nos mudamos para aquela casa em março de 96. Um lugar vitoriano antigo na Rua Sycamore, precisava de reformas, mas o preço era bom. Meu marido viaja muito a trabalho — o território de vendas dele cobre boa parte do Nordeste — então ele ficou fora durante todo aquele primeiro mês em que estávamos nos instalando. Só eu e as crianças: Emily tinha sete anos, Connor tinha cinco. Lembro de estar irritada por ter que fazer toda a arrumação sozinha. O porão era inacabado. Piso de concreto, vigas aparentes, aquele cheiro de umidade que os porões velhos têm. Eu tinha dito às crianças para não descerem lá sem mim. Muitos lugares para tropeçar, pregos enferrujados saindo das tábuas, você sabe como é. Mas criança não obedece, né? São curiosas.
Tinha umas duas semanas depois que a gente se mudou. Eu estava na cozinha preparando o almoço quando ouvi a voz de Emily vindo da porta do porão. Ela estava no topo da escada, olhando para baixo, e disse algo como: 'Ei, como vocês estão?' De um jeito bem amigável, como se tivesse achado o gato do vizinho ou coisa assim. Fui até lá e perguntei com quem ela estava falando. Ela me olhou com uma expressão completamente normal e disse: 'Com as pessoasinhas.' Sem sussurrar, sem medo. Simplesmente como um fato. Como se eu tivesse perguntado qual era a cor do céu. Olhei escada abaixo. Não tinha nada. Só o porão mal iluminado, aquela lâmpada pelada que tínhamos colocado, as sombras do aquecedor de água. Achei que ela estava brincando de faz-de-conta. Ela tinha amigos imaginários nessa idade. Disse pra ela subir e lavar as mãos para o almoço.
Mas aí foi continuando. As duas crianças desciam lá e eu as ouvia conversando, rindo. Connor me disse que estavam jogando esconde-esconde com as pessoasinhas. Emily disse que elas moravam nas paredes e saíam para brincar. Ela as descrevia como tendo talvez sessenta centímetros de altura, usando roupas marrons de um estilo antigo. Olhos grandes, ela dizia. Maiores do que o normal. Perguntei quais eram os nomes delas. Emily disse que uma se chamava Pip e a outra Tess. Havia outras, mas essas eram as principais. Ela falava delas do jeito que as crianças falam de amigos de verdade. Detalhes específicos. 'O Pip gosta de empilhar os potes velhos' ou 'A Tess não gosta de barulho alto.' O problema é que eu nunca as vi. Nenhuma vez sequer. E tentei. Descia de mansinho quando as crianças estavam brincando, ficava sentada na escada observando. Nada. Mas eu ouvia meus filhos conversando com alguém, respondendo como se tivessem conversas de verdade. Dá para perceber quando uma criança está fingindo. Aquilo não era fingimento.
[ A história continua no jogo completo... ]