Isso aconteceu no Iraque. Outubro de 2003, início do período de missão. Eu estava com a 1ª Divisão de Fuzileiros Navais, e a gente vinha operando na área ao redor de Fallujah por umas seis semanas nessa época. Eu era atirador de SAW, Squad Automatic Weapon, então carregava meu M16A2 e umas 600 munições encadeadas. Kit pesado. A gente vinha fazendo patrulhas por essas aldeias onde a luta tinha sido mais pesada, fazendo varreduras, verificando esconderijos de armas, esse tipo de coisa. O cheiro era o que te pegava primeiro. Corpos não se conservam bem naquele calor, sabe o que quero dizer. Aquela noite em específico a gente foi designado pra fazer uma verificação do perímetro ao redor de um local onde tinha havido contato pesado dois dias antes. Insurgentes tinham tentado tomar um posto de controle. Não deu certo pra eles. Ainda havia corpos por lá, os nossos já tinham sido retirados, mas os deles estavam jogados onde tinham caído. O Comando não queria ninguém circulando por lá até o EOD poder varrer em busca de IEDs. Então a gente tava andando nesse perímetro, quatro de nós, ficando uns cinquenta metros de distância de onde estavam os corpos. Era por volta das 0200 horas. Sem lua naquela noite, só estrelas e nossa visão noturna.
Meu líder de esquadrão, o Sargento Ramos, nos mantinha em movimento no sentido horário ao redor do local. Profissional, silencioso, armas prontas. A gente já tinha feito esse tipo de coisa umas cem vezes até então. Você entra num ritmo com isso. Vigia seus setores, mantém os intervalos, fica alerta mas sem ficar nervoso. O deserto à noite tem sons próprios, o vento se movendo pela areia, equipamento rangendo, sua própria respiração dentro do capacete. A gente tava mais ou menos na metade do perímetro quando vi alguma coisa se mover. Não lá no deserto. Lá, onde estavam os corpos. Levantei o punho, sinal padrão pra parar. Todo mundo congelou. Ramos se aproximou de mim, sussurrou 'O que você tem?' Apontei. Disse que vi movimento às duas horas, uns quarenta metros à frente, bem na zona de eliminação. Ele olhou com a ótica por uns dez segundos. Então disse: 'Não estou vendo nada. Provavelmente cachorros selvagens. Eles andam mexendo nos corpos.' Era verdade, a gente tinha visto evidência de animais se alimentando. Mas isso não era um cachorro.
Continuamos em movimento. Mantive a arma apontada para aquela área, mas não vi de novo por talvez mais cinco minutos. Então apareceu. Uma forma. Se movendo entre os cadáveres. Era humanoide, mas errada. Alta demais, uns dois metros e dez, e as proporções eram estranhas. Os membros eram longos demais. Movia-se de um jeito entrecortado, tipo filmagem em stop-motion. Estava num corpo, aí de repente estava em outro três metros adiante. Sem transição. Só ali, depois ali. Toquei o Ramos de novo. Dessa vez ele viu também. Observei a mandíbula dele ficar tensa. Ele acionou o rádio, voz baixa: 'Actual, aqui é Eagle-Three. Temos movimento na zona de eliminação. Possível hostil. Como recebem?' A resposta veio: 'Eagle-Three, Actual. Nenhum aliado no seu setor. Armas liberadas se ameaçado.' Mas Ramos não atirou. Nenhum de nós atirou. Porque a coisa não estava se aproximando de nós. Ela se movia de cadáver em cadáver, se curvando sobre cada um. A visão noturna dava aquele brilho verde a tudo, e naquele verde eu conseguia ver ela se agachar ao lado de um corpo, se inclinar como se estivesse examinando, e depois se mover pro próximo. Era completamente preta. Não vestindo preto, ela era preta. Como uma sombra com massa. Sem detalhes, sem feições que eu pudesse distinguir mesmo com o monóculo PVS-14 me dando perfeita clareza. Só uma silhueta preta contra o chão do deserto.
[ A história continua no jogo completo... ]