Trabalho em microassemblagem. Sabe, placas de circuito, soldas minúsculas. Passo oito horas por dia olhando através de uma lupa, aquela lente de aumento que joalheiros usam. Seus olhos se acostumam com essa escala, se é que faz sentido. Você para de ver o mundo como coisas grandes. Começa a ver como componentes. Motas de poeira parecem pedregulhos. Um cabelo parece um cabo de aço. Te muda. Você chega em casa e ainda está procurando os pequenos detalhes. Era 2004. Spokane, Washington. Eu alugava esse apartamento no subsolo. Barato. Úmido. Mas era quieto. Morava sozinho na época. Sem roommates, sem animais. Só eu e minha bancada de trabalho.
Então é tarde. Umas duas e meia da madrugada. Acordo com sede. Boca seca. Não acendo as luzes. Sei onde fica a pia. O lugar está completamente escuro. Quero dizer, zero luz. Tinha essas cortinas blackout porque às vezes trabalhava à noite e precisava dormir durante o dia. Então está como um túmulo lá dentro. Vou arrastando os pés até a cozinha, descalço no linóleo. Encho um copo d'água, bebo, ponho o copo na pia. E aí vejo algo. Perto da torradeira. Um ponto. Só um pontinho no balcão. Mas se moveu. Não como se estivesse à deriva. Deu um solavanco. Como um movimento consciente. Vasculhei na gaveta, achei minha lupa. Sempre guardo uma na cozinha, não me pergunta por quê.
Coloquei no olho. Me inclinei sobre o balcão. Aproximei o rosto uns cinco centímetros. E lá estava ele. Um homem. Um homenzinho minúsculo. Uns seis milímetros de altura. Curvado sobre uma migalha de pão. Tinha uma pele que parecia um pêssego machucado. Meio translúcida? E vestia... não sei, uma túnica. Feita de algo pálido. Talvez couro. Dava pra ver a costura nas laterais. Linha azul. Pontos minúsculos e perfeitos. detalhes - Drew' Dava pra ver os dedos também. Finos como agulhas. Ele estava arrancando pedaços do pão e enfiando na boca. Só comendo assim. Sem perceber o gigante que olhava pra ele por cima.
[ A história continua no jogo completo... ]