O Rosto no Céu

Inspirado em diversas fontes, incluindo eventos documentados, relatos de encontros, anedotas pessoais e folclore. Alguns nomes, locais e detalhes de identificação foram ajustados para fins de privacidade e continuidade narrativa.

Finalmente decidi que precisava contar isso pra alguém. Aconteceu em 2002, início de outubro. Eu morava em Ganja na época, trabalhava numa loja de tecidos durante o dia. Minha filha tinha só seis meses. Pequenininha, sempre agitada. Eu tinha ficado acordada metade da noite por causa da dentição dela, então não estava de bom humor naquela manhã. Quem tem filho sabe do que eu tô falando. Tem um parque no centro da cidade, perto da velha fortaleza. Cheio de árvores, bancos, um lago pequeno. As mães se encontravam lá pela manhã, deixavam os bebês tomar ar. Era nossa rotina. Eu chegava por volta das nove, me juntava às outras mulheres. A gente conversava, trocava dicas, reclamava dos maridos. Coisas normais. Naquela manhã tinha umas cinco ou seis de nós. Todas com bebês em carrinhos ou no colo. O tempo estava perfeito, fresco, céu limpo. Dava pra ver as montanhas ao longe. Lembro que pensei que era um dia bom demais pra gastar se preocupando com qualquer coisa.

A gente estava lá há uns vinte minutos quando eu ouvi. Aquele som. Diferente de qualquer pássaro que eu já tinha ouvido antes. Grave e ressonante, quase como uma buzina, mas orgânico. Vinha de cima, de algum lugar nas árvores. Eu olhei pra cima. As outras mães também. No começo eu não conseguia ver nada, só galhos e céu. Então ele se moveu. Mudou de posição nos galhos mais altos de um velho carvalho, uns dez metros acima. E foi aí que eu vi direito. Era uma coruja. Tinha que ser, pelo corpo. Envergadura enorme, facilmente metro e meio quando estendia as asas. Penas marrons e cinzas, padrão mosqueado. Do jeito que estava empoleirada, as garras apertando o galho — definitivamente uma coruja. Mas o rosto. O rosto não estava certo. Era um rosto humano. Não parecido com humano. Humano de verdade. Pele pálida, dois olhos voltados pra frente como os nossos, nariz, boca. As proporções estavam um pouco erradas, meio comprimidas, mas era inegavelmente o rosto de uma pessoa no corpo daquele pássaro. E estava nos encarando. Diretamente.

Nenhuma de nós se mexeu. As outras mães também viram, eu conseguia perceber pelas suas expressões. Uma mulher soltou um pequeno suspiro ofegante. Outra puxou o bebê pra mais perto. Ficamos todas paradas, olhando pra aquela coisa. Era um rosto de mulher, eu acho. Talvez de meia-idade. A expressão era neutra, quase vazia. Mas os olhos estavam focados. Alertas. Nos observando com uma concentração intensa. Do jeito que você observa algo que está estudando. Algo que está tentando entender. A cabeça inclinou de lado... do jeito que corujas fazem, aquele movimento lateral brusco. Mas ver um rosto humano fazer aquele movimento era errado. Profundamente errado. Minha pele gelou. Todo instinto que eu tinha estava me gritando pra pegar minha filha e correr. Então abriu a boca. Não pra fazer aquele som de buzina de novo. Só abriu. Eu conseguia ver dentes. Dentes humanos. E a boca foi abrindo cada vez mais, mais do que qualquer pessoa conseguiria abrir. Larga demais. A mandíbula pareceu se desencaixar levemente.

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