Ei, obrigado por atender minha ligação. Já faz anos que quero fazer isso, e finalmente, não sei, criei coragem, acho. Isso aconteceu em 93, no outono de 93, em Grand Haven, Michigan. Condado de Ottawa. Eu tinha quatorze anos na época, um garoto idiota que achava que sabia de tudo. Meus amigos e eu costumávamos passar muito tempo numa reserva natural perto da casa dos meus pais. A Reserva Natural de Hofma. Você podia caminhar pelas trilhas, mexer perto do riacho, esse tipo de coisa. O negócio é que a gente ia lá havia anos. Nunca viu nada estranho. Nunca nem ouviu nada estranho. Era só uma mata. Lembro que minha mãe estava me enchendo o saco a semana inteira por causa das minhas notas. Tinha tirado D em álgebra e ela não estava nada contente. Então eu estava meio de mau humor quando meus amigos queriam ir caminhar naquela noite. Éramos quatro, acho. Talvez cinco. Era depois de escurecer, o que, olhando para trás, foi bem idiota. Mas éramos adolescentes. Achávamos que éramos invencíveis. A reserva tem uma ponte flutuante perto do centro, que passa sobre uma área pantanosa. Estávamos passando por ela, só bagunçando, quando ouvimos algo à nossa direita. Num morro, a uns vinte metros de distância. No começo achei que era um cachorro. Algum cachorro passando pelas árvores. Conseguia ver o contorno atrás de um dos carvalhos maiores lá em cima.
Parei de caminhar. Mandei meus amigos ficarem quietos por um segundo. O contorno estava parado, meio curvado. Pelo escuro, difícil saber a cor exata sob a luz da lua. Podia ser marrom, podia ser cinza. E eu observava, tentando descobrir de quem era o cachorro que tinha fugido, quando ele se levantou. Avistamentos perto de Manistee em 87 mostram que esse é um padrão regional — Tom. Nas patas traseiras. Como uma pessoa se levantaria. Só que não era uma pessoa. Alto. Quase dois metros. Ombros largos, peito espesso. E a cabeça, estava errada. Comprida demais. Como a cabeça de um lobo, mas maior. Um dos pés dele, juro por Deus, um dos pés estava agarrado num galho da árvore. Como se tivesse mãos nos pés ou algo assim. Não sei como descrever de outra forma. Nossos olhos se encontraram. Eu e aquela coisa. E ficamos apenas nos encarando. Não conseguia me mover. Meus amigos me perguntavam o que havia de errado, o que eu estava olhando, mas eu não conseguia responder. Não sei quanto tempo ficamos lá. Pareceu cinco minutos. Podia ter sido trinta segundos. O tempo faz coisas estranhas quando você está apavorado. Então voltou para todas as quatro patas e sumiu na mata. Sem fazer barulho. Uma coisa tão grande, se movendo tão rápido, você acharia que ouviria galhos quebrando, folhas rangendo. Nada. Simplesmente foi embora.
Meus amigos finalmente viram minha expressão e perceberam que algo estava muito errado. Saímos correndo de lá. Não paramos até chegar ao estacionamento. Tentei contar a eles o que tinha visto, mas mesmo enquanto as palavras saíam da minha boca, eu sabia como soava absurdo. Um cachorro gigante que andava como gente? Eles acharam que eu estava brincando. Tentando assustá-los. Deixei que pensassem isso. Era mais fácil do que a verdade. Aquilo devia ter sido o fim disso. Uma noite estranha, uma coisa que não conseguia explicar. Mas não foi o fim. Nem perto disso. Algumas semanas depois, em dezembro acho, eu estava na casa dos meus pais. Eles moravam na Rua Lakewood, um bairro bem tranquilo. Minha mãe me pediu para sair e ligar o carro dela, deixar esquentar. Estava frio naquela noite, o tipo de frio que dói nos pulmões. Saí até a entrada de garagem com as chaves na mão. O carro estava estacionado perto do fim, próximo de onde a propriedade encontrava a floresta. Apertei o botão de destrave do controle e os faróis piscaram. O negócio é que, quando as luzes piscaram, vi algo parado atrás do carro. Simplesmente parado ali. Em duas patas. Enorme. Coberto de pelo escuro. Me encarando.
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