Oi, obrigado por atender minha ligação. Sou fotógrafo de vida selvagem, faço isso há quinze anos. Já estive no Alaska, em Svalbard, no norte do Canadá. Já fiquei sozinho em alguns dos lugares mais remotos da Terra. Não me assusto fácil, entende? Mas o que aconteceu comigo na Groenlândia foi diferente. Aquilo mudou as coisas para mim. Foi em abril de 2019. Eu estava hospedado num conjunto de cabanas no Fiorde de Nuuk — os moradores chamavam o lugar de Cidade Fantasma porque não dá pra ver do outro lado da colina. Quatro cabanas no total, espaço para umas dezesseis pessoas. Eu era o único hóspede. Meu voo para Ilulissat tinha sido adiado três dias por causa do tempo, então resolvi aproveitar para fotografar o fiorde à noite.
Na primeira noite, o vento veio com força. E quando digo força, quero dizer que parecia vivo. Como algo rosnando contra as paredes. Já ouvi vento ártico antes, mas aquele era diferente. Não era constante. Vinha em ondas, como se algo estivesse circulando a cabana, testando-a. Me disse que estava sendo idiota. O isolamento prega peças, né? Foi o que me disse. A cabana tinha essas janelas grandes voltadas para o fiorde, sem cortinas. A luz da lua rebatia na Montanha Sermitsiaq do outro lado da baía. Lindo, de verdade. Fiquei ali olhando por horas, não conseguia dormir. Por volta das duas da manhã, o vento simplesmente parou. Silêncio mortal. E silêncio total mesmo. Sem ondas, sem rangidos, nada. Em quinze anos, nunca tinha ouvido o Ártico ficar tão quieto.
Foi quando percebi o cheiro. Um cheiro de animal molhado, como pelo encharcado ou couro velho deixado na chuva. Atravessou as paredes de alguma forma. Forte o suficiente para eu me levantar e verificar as janelas, a porta. Tudo estava fechado. Mas o cheiro continuou ficando mais forte. esse tipo de cheiro no frio é difícil de explicar — Anders' Peguei a câmera por instinto, pensando que talvez pudesse fotografar o que estava causando aquilo. Besteira, eu sei. Fui até a janela voltada para a colina, e foi aí que vi o movimento. Havia algo no cume do morro, a uns trezentos metros. Uma silhueta contra a neve iluminada pela lua. Formato humano, mas errado de alguma forma. As proporções estavam deslocadas.
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