Oi, obrigada por atender minha ligação. Não sei bem como começar isso, então vou direto ao ponto. Algo aconteceu na minha casa outro dia. Moro lá há oito anos e nunca tinha acontecido nada assim. Eu não estava dormindo. Esse detalhe fica preso em mim. Estava deitada, pensando em coisas do trabalho, sem conseguir me acomodar. Meu marido estava viajando a negócios a semana toda, e é justamente isso — eu estava completamente sozinha em casa. Aí ouvi um barulho lá embaixo. Não alto, só deliberado. Quatro batidas, uma pausa, depois um arrasto lento. Parecia alguém tentando chamar minha atenção sem acordar a rua toda. Pensei que pudesse ser meu cachorro. Às vezes ele fica inquieto, mas o som não era o dele. Então me levantei e desci. odeio ficar sozinha à noite — Kieran' No momento em que cheguei ao último degrau, o ar parecia mais frio do que deveria. Não um frio dramático, apenas errado. Como se uma porta tivesse sido aberta por alguns segundos e fechada de novo. Minha gata estava no canto da sala, tão grudada no rodapé que parecia menor do que é. A espinha estava arqueada, e ela soltou um ronco grave que só ouvi umas poucas vezes na vida dela. Segui o olhar dela até o meio da sala, e foi aí que eu vi.
Havia algo agachado ali. A princípio pensei que fosse uma criança, uma criança bem pequena, mas estava errado. Fino demais, a espinha apontada demais, os braços longos demais. A pele parecia empoeirada, da cor de algo esquecido no sótão por anos. Tinha uma mão estendida para a minha gata, estaleando os dedos na direção dela. Provocando-a. Quase gentil. Então virou a cabeça na minha direção sem mover mais nada. Só a cabeça. Devagar. Suave. Quando o rosto se voltou para mim, estava sorrindo. Tenso e pequeno. Lembro de ver aqueles dentinhos escuros como madeira velha. Esse detalhe ficou comigo porque pareciam quase polidos. Minha gata saiu correndo para baixo do sofá assim que me viu. A coisa inclinou a cabeça levemente, como se estivesse curiosa, e então se moveu. Rápido. Rápido demais. Não correu como uma pessoa corre. Se arrastou pelo chão em movimentos bruscos e rasteiros. Saí correndo sem pensar. Bati na mesinha do corredor pelo caminho, com força suficiente para algo cair, mas depois nada estava fora do lugar. Talvez eu tenha imaginado o impacto. Só sei que ouvia a coisa atrás de mim. Não eram passos regulares. Rajadas rápidas. Um arrasto, depois silêncio, depois de repente perto de novo. Na metade da escada, senti algo roçar o calcanhar do meu pé. Frio. Fico me dizendo que imaginei. Mas acho que não.
Cheguei ao meu quarto, fechei a porta mesmo com a fechadura quebrada há anos, e me joguei na cama. Puxei o cobertor sobre a cabeça antes mesmo de entender o que estava fazendo. Pareceu idiota, mas era a única coisa que me veio à cabeça. A casa ficou em silêncio de novo. Não o silêncio normal. Silêncio pesado. Silêncio que escuta. Conseguia ouvir minha respiração presa dentro do cobertor, e cada segundo parecia longo demais. E o que é curioso: nem pensei em gritar. Aí a porta abriu. Devagar. Não totalmente, só um empurrão suave. Como se algo pequeno quisesse se esgueirar sem fazer barulho. Sussurrei para meu marido verificar o corredor, mas ele não respondeu. Ouvi os pés dela no chão. Suave. Suave demais para o quão rápido tinha se movido antes. Cada passo era deliberado. O colchão cedeu levemente, só o suficiente para eu saber que havia algo sobre ele. Então um dedo deslizou pelo lado de fora do cobertor, bem sobre minha cabeça. Devagar. Cuidadoso. Prendi a respiração. Mas ainda conseguia ouvir a respiração do outro lado do tecido. Respirações leves. Calmas. Calmas demais.
[ A história continua no jogo completo... ]