Alô? Sim. Obrigada por atender minha ligação. Eu... eu preciso contar isso pra alguém. É algo sobre o qual mal falei em cinquenta anos, mas parece importante dizer em voz alta pra pessoas que talvez entendam. Aconteceu em maio de 1973. Eu era só uma criança, tinha apenas oito anos. Tava com dois amigos, a gente brincava perto da antiga bateria de Culver Down, não muito longe de Sandown. Era o nosso playground, todo coberto de urze, giesta e velhos bunkers de concreto da guerra. Conhecíamos cada centímetro daquele lugar. Nessa tarde em particular, a gente viu algo que não estava lá antes. Enfiada numa pequena várzea gramada havia uma construção. Não era uma casa, mais parecida com uma cabana de praia ou uma casinha muito pequena, mas era... errada. Parecia tremer levemente nas bordas, como miragem de calor, mesmo o dia não estando particularmente quente. A gente tinha brincado naquele exato lugar centenas de vezes. Nunca tinha havido nada ali. A curiosidade, sabe, supera o medo quando você tem aquela idade. Nos aproximamos de mansinho. A porta estava entreaberta. A gente empurrou e espiou lá dentro. O cômodo era vazio, exceto por um banquinho e uma figura sentada nele. E foi aí que eu o vi. Era alto e muito magro, usando o que parecia uma roupa de palhaço, mas não o tipo feliz de circo. Era mais como um Pierrot, uma fantasia teatral e triste. Era uma peça única com uma gola ou babado ao redor do pescoço. Usava um chapéu alto e pontudo, e na frente do chapéu havia um triângulo azul sólido e perfeito. Tinha um nariz vermelho e esférico, mas não parecia pintado; era parte dele. Sua pele era a coisa mais perturbadora. Era pálida, lisa, quase cerosa, como um manequim. Ele não tinha cabelo visível, e suas orelhas eram pontudas, como as de um duende de livro de histórias. Mas seus olhos... eram grandes, escuros e completamente vazios. Não malvados, não gentis... simplesmente ausentes. E quando falou, sua voz não saiu da boca. Era um som metálico e agudo, como um rádio barato, e parecia preencher o cômodo de todas as direções ao mesmo tempo.
Ele nos disse que seu nome era Sam. Se levantou, e seus movimentos eram bruscos e antinaturais, como um fantoche com os fios embaralhados. Perguntou o que éramos. Dissemos que éramos crianças. Ele pareceu processar isso por um momento, depois perguntou: 'O que são crianças?' A curiosidade, sabe, nos manteve ali quando deveríamos ter fugido. Tirou um saco amassado do bolso e nos ofereceu balas. A gente só balançou a cabeça. Estávamos hipnotizados e assustados demais pra nos mover. Então ele nos mostrou um livro. Era do tamanho de um álbum de fotos. Abriu, e as páginas estavam cheias de símbolos estranhos, como nada que eu jamais tinha visto. Não eram letras nem números. Enquanto seu dedo longo e fino traçava uma linha embaixo de um dos símbolos, ele parecia brilhar e tremer na página. Perguntou se conseguíamos desenhá-los. A gente tinha papel e giz de cera numa bolsa, então desenhamos. Ele nos observou com atenção, a cabeça inclinando num ângulo estranho e impossível. Quando mostramos nossos desenhos, ele fez um som que não era uma palavra, mais como... um bipe de computador. Parecia satisfeito. Continuou fazendo essas perguntas simples e profundas. 'O que é diversão?' 'Por que vocês brincam?' 'O que é uma mãe?' Era como se fosse um cientista tentando entender os conceitos mais básicos da vida humana. Quando perguntamos de onde ele era, não falou. Apenas levantou lentamente um dedo e apontou direto pra cima, em direção ao céu. Depois de uns trinta minutos, ele de repente se levantou e foi até a porta. Disse: 'Vocês precisam ir agora.' Não era uma sugestão. Nos conduziu pra fora e ficou na soleira. Nos viramos pra caminhar embora, e depois de uns dez passos, olhei pra trás. A casinha havia sumido. Não estava só vazia, tinha desaparecido por completo. Não havia nada além da várzea gramada, do jeito que sempre tinha sido.
Saímos correndo até em casa. Claro que nossos pais não acreditaram em nós. Acharam que era brincadeira, uma história que a gente tinha inventado. Mas eu e meus amigos sabíamos. Tínhamos visto a mesma coisa impossível. A história não ficou quieta por muito tempo. Chegou ao conhecimento de um grupo local de pesquisa ufológica, o Wight UFO Research Group, que entrou em contato com nossos pais. Nos entrevistaram separadamente, por horas. Nos pediram pra desenhar a figura, o chapéu, os símbolos do livro. Nossos desenhos eram praticamente idênticos, até o triângulo azul no chapéu e as formas específicas dos símbolos. A UFO Research Association investigou, três crianças, histórias idênticas, desenhos idênticos - Teagan' Nos disseram que os símbolos não correspondiam a nenhuma língua conhecida, antiga ou moderna. Foram muito minuciosos e muito gentis. Não nos trataram como crianças bobas; nos trataram como testemunhas. Conforme fui crescendo, voltei àquele lugar em Culver Down muitas vezes. Procurei qualquer sinal de fundação, um poste, qualquer coisa. Não há nada. É como se aquela estrutura nunca tivesse existido. Até analisei mapas antigos da área, de antes e depois de 1973. Não há nenhum registro de qualquer construção que jamais tenha existido lá. Então eu não sei o que encontramos naquele dia. Era um fantasma? Uma entidade de outra dimensão? Um visitante de algum outro lugar do cosmos? Ele não parecia ameaçador, mas não era do nosso mundo. Aquela voz metálica, a pele cerosa, o jeito que ele se movia... tudo isso está gravado na minha memória. Aquela experiência mudou minha percepção da realidade para sempre. A curiosidade, sabe, nos levou a algo impossível naquele dia. Me ensinou que o mundo é um lugar muito mais estranho e maravilhoso do que a maioria das pessoas ousa imaginar. Eu sei o que vi. Meus amigos sabem o que vimos. E pelo resto da minha vida, serei grata por aquela tarde aterrorizante e desconcertante em que conhecemos Sam.
[ A história continua no jogo completo... ]