Boa noite. Agradeço por atender minha ligação. Me chamo Earl, ligando de Durango, e estava querendo compartilhar isso faz muito tempo. É que meu avô trabalhou nos acampamentos madeireiros do sudoeste do Colorado lá no início dos anos 1900. As Montanhas San Juan. Terra bruta entre os Picos de Ophir e o Lizard Head. Ele faleceu em '74, mas antes de partir me contou histórias das quais nunca me livrei. Histórias que os lenhadores contavam uns para os outros de noite naquelas cabanas. A maioria das pessoas hoje em dia chama de contos fantásticos. Bichos assustadores, chamavam eles. Monstros inventados para amedrontar os novatos. Mas aqui está o ponto. Meu avô não era do tipo de inventar histórias. Trabalhou com madeira a vida toda, prático como poucos. Quando me contava sobre o que eles viram naquelas montanhas, não estava rindo. Não estava me cutucando como se fosse uma piada. Estava completamente sério. E a história que me contou com mais frequência, aquela que ficou com ele até o fim, era sobre algo que chamavam de Slide-Rock Bolter.
Do jeito que meu avô descrevia, o Bolter era como nada que pertencesse à terra firme. Ele dizia que parecia uma baleia. Uma coisa enorme, parecida com baleia, com uma cabeça descomunal e esses olhinhos miúdos e vivos. A boca se estendia por todo o caminho, passando de onde seriam as orelhas, como um escorpião-do-mar, ele dizia. Apenas uma enorme goela escancarada cheia de dentes. Cinza ou marrom, dependendo de quem você perguntasse. Se camuflava direitinho nas pedras. Mas a parte mais estranha era a cauda. Tinha uma cauda dividida de barbatana com esses ganchos enormes nas pontas. Como ganchos de alpinismo. E os homens diziam que usava esses ganchos para se ancorar bem no topo das cristas mais íngremes das montanhas. A criatura só vivia nos flancos mais abruptos das montanhas. Quarenta e cinco graus ou mais. Qualquer inclinação menor e ela não conseguia caçar do jeito que precisava. Era o que diziam. Ficava ali pendurada, imóvel, por dias inteiros. Observando. Esperando.
O jeito que caçava era o que tirava o sono dos homens. O Bolter ficava ali na crista, observando o vale lá embaixo. Olhando para turistas, principalmente. Gente rica do Leste que vinha ver as montanhas, com seus casacos chiques e guias de viagem nas mãos. A criatura conseguia vê-los vir de quilômetros de distância com aqueles olhinhos. Quando avistava a presa, levantava a cauda, se soltava da montanha, e deixava a gravidade fazer o resto. Descia como um trenó, dizia meu avô. E aqui está a parte que me impressionou. Diziam que ela babava uma graxa fina e oleosa pelos cantos da boca enquanto deslizava. soa exatamente como um deslizamento de terra - Tom' Graxa de deslize, chamavam. Lubrificava a barriga para conseguir descer ainda mais rápido pela encosta. Para quando você ouvisse chegar, já era tarde. Engolido direto naquela boca descomunal. E o impulso a levava direto ao alto da próxima encosta, onde cravava a cauda noutra crista e esperava a próxima refeição. Grupos inteiros de turistas foram relatados como engolidos de uma vez só. Simplesmente sumiram. E é isso — nunca encontraram os corpos.
[ A história continua no jogo completo... ]