Preciso contar pra alguém sobre isso. Aconteceu em 2003, quando eu morava sozinho em dois hectares de terra fora de Whitehall, em Montana. Tinha acabado de me divorciar e queria espaço, sabe? Um lugar quieto pra limpar a cabeça. A propriedade era perfeita. Casa de fazenda velha, vizinho mais próximo a uns três quilômetros pela estrada. Só eu e as árvores. Tinha uns três meses que eu tava lá quando comecei a notar coisas. Pequenas a princípio. Minha cadela não queria mais sair depois do anoitecer. Ficava parada na porta dos fundos, ganindo, mas não saía. Essa era uma Pastor Alemã que nunca tinha tido medo de nada. Pensei que talvez houvesse coiotes por perto, ou um urso. Então comecei a encontrar pegadas no quintal. Logo fora da minha janela do quarto, na terra onde eu tinha plantado algumas flores. Tinham a forma de pegadas humanas, mas erradas. Longas demais, talvez uns trinta e cinco centímetros. Os dedos estavam abertos, como dedos de mão. E eram fundas. O que quer que as tivesse feito era pesado.
A primeira vez que eu o vi foi numa terça à noite no final de setembro. Lembro porque tinha acabado de receber e tava me sentindo bem, e então. Eu tava lavando a louça por volta das 22h, olhando pela janela da cozinha pro quintal dos fundos. A luz de sensor de movimento tava acesa, iluminando uns nove metros de grama antes do limite das árvores. Estava parado bem na beira da luz. Só parado ali, exatamente onde a iluminação encontrava a escuridão. À primeira olhada, parecia uma pessoa. Alto, talvez dois metros. Em pé ereto em dois pés. Mas as proporções estavam erradas, e é isso que eu preciso dizer. Os braços pendiam abaixo dos joelhos, longos demais pro corpo. As pernas dobravam pra trás no que devia ser o joelho, como a perna de um pássaro. A cabeça era basicamente humana mas alongada, se estendendo longe demais pra trás. Não estava se movendo. Só parado ali, de frente pra casa. De frente pra mim. A pele era pálida, cinza-esbranquiçada na luz artificial. Não conseguia ver nenhuma roupa nela. A superfície da pele parecia lisa, mas de alguma forma errada, como se fosse apertada demais sobre os ossos. E o rosto. Deus, o rosto. Tinha olhos. Olhos escuros que pegavam a luz, mas eram grandes demais, espaçados demais. A boca era uma linha fina, fechada, se estendendo mais largo do que uma boca humana deveria.
Deixei cair o prato que estava segurando. Estilhaçou na pia e eu pulei pra longe da janela. Quando olhei de novo, talvez cinco segundos depois, havia sumido. Só o quintal vazio e as árvores. Verifiquei cada porta, cada janela. Me certifiquei que tudo estava trancado. Minha cadela estava no canto da sala, tremendo. Não dormi naquela noite. Sentei no meu quarto com um taco de beisebol no colo, ouvindo. Na noite seguinte, ele voltou. Quase no mesmo horário, quase exatamente às 22h. Mesmo lugar na beira da luz. Dessa vez não fui perto da janela. Observei do corredor, espiando pela esquina. Ficou parado lá por uns vinte minutos. Completamente imóvel. Então deu um passo pra frente, pra dentro da luz. Depois mais um passo. Estava se aproximando da casa. Liguei pro 190. Disse que alguém estava no meu quintal, que eu estava com medo. A telefonista disse que mandaria um agente. O departamento do xerife ficava a uns quarenta minutos de distância. A coisa continuou andando. Passos lentos, deliberados. Aquelas pernas dobradas pra trás se movendo de um jeito que me revirava o estômago. Chegou a uns quatro metros da casa antes do som da sirene começar ao longe. pernas dobradas pra trás são absolutamente pesadelo - Brynn' Então virou, não como uma pessoa vira, mas girando o torso inteiro enquanto as pernas ficavam paradas. E correu de volta pras árvores. Rápido. Rápido demais pra algo daquele tamanho.
[ A história continua no jogo completo... ]